Quando quem fundou abre espaço: o que a sucessão me ensinou sobre novos ciclos

Ao acompanhar minha mãe construindo novos caminhos depois de décadas à frente de uma empresa, entendi que a sucessão transforma quem assume, mas também quem abre espaço. E que mudar de lugar não significa deixar uma história para trás, mas descobrir outras formas de continuar fazendo parte dela.

Há algumas frases que permanecem conosco porque conseguem organizar algo que já vivemos, mas talvez ainda não tivéssemos compreendido por inteiro.

Recentemente, durante uma conversa com minha mãe, Marcia Mocelin, estávamos relembrando o período em que a sucessão da Apetit foi formalizada. Falávamos sobre a minha chegada à posição de CEO, sobre as escolhas que ela fez naquele momento e sobre como nossas trajetórias começaram a mudar praticamente ao mesmo tempo.

Foi quando ela disse: “Eu te dei oportunidade porque eu saí.”

Naturalmente, pensei no espaço que recebi para assumir. Mas depois comecei a prestar atenção na outra parte daquela frase: o que significou, para ela, sair?

Falamos muito sobre preparar quem vai assumir uma empresa familiar. Discutimos experiência, confiança, autonomia e responsabilidade. São questões importantes e fizeram parte da minha própria trajetória. Mas talvez ainda conversemos pouco sobre quem passou décadas construindo uma empresa e, em determinado momento, percebe que pode continuar contribuindo sem precisar ocupar o mesmo lugar.

Abrir espaço sem deixar de fazer parte

Minha mãe nunca teve uma relação distante com o trabalho. Quem convive com ela sabe o quanto gosta de realizar, colocar projetos de pé, estar perto das pessoas e encontrar possibilidades onde outros ainda não estão vendo.

Por isso, a sucessão não representou simplesmente uma mudança no organograma. Enquanto eu assumia novas responsabilidades dentro da empresa, ela começava também a construir uma nova etapa da própria trajetória.

Hoje consigo perceber como esses dois movimentos se complementaram. Eu precisava de espaço para conduzir a empresa com autonomia, assumindo decisões e suas consequências. Ela, por sua vez, ainda tinha muita energia, experiência e vontade de realizar para concentrar tudo aquilo em uma única função.

Talvez uma das coisas mais bonitas desse processo tenha sido justamente essa: minha mãe não precisou diminuir para que eu pudesse crescer. Ela ampliou os lugares nos quais também poderia continuar crescendo. E nunca deixou de fazer parte da Apetit.

Ela continua presente no nosso dia a dia, próxima da empresa e, principalmente, próxima de mim. Continuamos conversando, trocando experiências e aprendendo uma com a outra. O que mudou foi o lugar que cada uma passou a ocupar.

Com o tempo, fui entendendo que existe uma diferença importante entre fazer parte de uma história e precisar estar no centro dela.

Quando outras partes de nós encontram espaço

Os anos seguintes trouxeram novos projetos e novos ciclos para minha mãe. E nem sempre havia um plano perfeitamente desenhado sobre o que viria depois.

Foi nesse caminho que comecei a acompanhar o nascimento de uma outra expressão dela: a Marcia Mocelin, escritora.

Não enxergo essa trajetória como uma ruptura com a empresária que conheci durante toda a minha vida. Vejo justamente o contrário. Tudo aquilo que ela viveu, construiu, sentiu e aprendeu passou a encontrar uma nova forma de expressão.

Em nossa conversa, ela contou que, nesse processo, começou a aprender de novo. Gosto muito dessa frase porque existe uma humildade bonita em alguém com tanta experiência voltar a ocupar o lugar de aprendiz.

Talvez seja uma das possibilidades mais interessantes dos novos ciclos. Não precisamos abandonar aquilo que fomos para construir algo diferente. Podemos carregar conosco a experiência acumulada e, ao mesmo tempo, permitir que outras partes de nós encontrem espaço para crescer.

Hoje, quando olho para minha mãe, continuo vendo a empresária, a fundadora, a mulher que participou intensamente da construção da Apetit. Mas vejo também a Marcia Mocelin escritora, construindo outra trajetória sem precisar apagar nenhuma das anteriores.

O que essa história me ensinou sobre liderança

Durante muito tempo, enxerguei naturalmente a sucessão do lugar de quem estava assumindo. Minha atenção estava nas novas responsabilidades, nas decisões que passavam a depender de mim e em tudo o que eu ainda precisava aprender.

Hoje, observando minha mãe, consigo olhar um pouco mais adiante. Se acredito verdadeiramente em continuidade, preciso compreender que a posição que ocupo atualmente também não é definitiva. Em algum momento, outra pessoa poderá estar preparada para assumir responsabilidades que hoje são minhas e, quando isso acontecer, não bastará dizer que confio. Eu também precisarei saber transformar essa confiança em espaço.

Mas existe outra pergunta que essa experiência acrescentou à minha reflexão: quem eu quero continuar sendo quando esse ciclo mudar?

Talvez liderar também envolva não colocar toda a nossa identidade na posição que ocupamos hoje. Podemos nos comprometer profundamente com uma função e, ao mesmo tempo, compreender que nossa capacidade de contribuir é maior do que qualquer cargo.

Isso muda inclusive a maneira como penso a empresa. Quero continuar contribuindo para uma organização capaz de desenvolver pessoas, fortalecer processos e seguir evoluindo ao longo de diferentes ciclos de liderança, inclusive quando chegar o momento de eu mesma mudar de lugar.

O que estamos construindo além da função que exercemos?

Talvez essa seja a pergunta mais prática que a experiência da minha mãe me deixou. Ao longo da carreira, é natural dedicarmos quase toda a energia às responsabilidades do presente.

Temos decisões, equipes, projetos e problemas que pedem nossa atenção todos os dias. Mas vale, de tempos em tempos, olhar um pouco além e perguntar o que estamos construindo em nós mesmos para quando essa fase mudar.

Estamos preparando pessoas para crescer de verdade? Conseguimos imaginar nossa contribuição para além da posição atual? Estamos permitindo que interesses, conhecimentos e partes de nós que ficaram em segundo plano também tenham espaço?

Não acredito que essas respostas precisem estar prontas. A trajetória da minha mãe me mostrou justamente que alguns caminhos são descobertos enquanto os percorremos.

Quando ela disse “eu te dei oportunidade porque eu saí”, não estava dizendo que deixou de fazer parte daquela história. Estava contando que percebeu que havia chegado o momento de mudar de lugar. Ao fazer isso, abriu espaço para mim e, de alguma forma, abriu espaço para si mesma também.

Hoje sou a filha que recebeu essa oportunidade. Um dia, espero ter maturidade para perceber quando chegar a minha vez de oferecê-la. E existe algo especialmente bonito em acompanhar minha mãe agora, construindo a trajetória de Marcia Mocelin sem deixar para trás a mulher, a empresária e a fundadora que sempre foi.

Talvez seja essa uma das coisas que mais tenho aprendido com ela: abrir espaço para outra pessoa não significa desaparecer. Às vezes, também significa descobrir quanto de nós ainda pode florescer quando nos permitimos ocupar novos lugares.

A conversa por trás desta reflexão

Este artigo nasceu de uma conversa muito maior entre mim e minha mãe. No podcast, voltamos a nossa história a partir de duas perspectivas diferentes. Falamos sobre família, empresa, sucessão, escolhas, momentos difíceis, mudanças de ciclo e sobre tudo aquilo que fomos compreendendo enquanto vivíamos essa trajetória.

Mas talvez o que mais gosto nessa conversa seja justamente o que não poderia ser planejado: as lembranças que surgem, as diferenças de percepção, o olhar de mãe e filha para os mesmos acontecimentos e aquilo que uma geração foi aprendendo com a outra.

Se você vive em uma empresa familiar, está formando alguém para assumir novas responsabilidades, atravessando uma mudança profissional ou simplesmente pensando sobre os próximos ciclos da própria trajetória, acredito que encontrará nessa conversa reflexões que podem fazer sentido também para a sua história.

E deixo uma pergunta que essa conversa também deixou para mim: quem você está construindo além da posição que ocupa hoje?

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Assista à conversa completa entre Pamela Manfrin e Marcia Mocelin no YouTube:

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